A partir de hoje escreverei sobre ti. Descobri que não consigo te alcançar como eu sempre desejei, enquanto eu simplesmente me deixo afogar por teus delírios - embora tantas vezes alucinantes e sedutores - e os incorporo em primeira pessoa. Também não adianta te tratar em terceira pessoa, como um eu distante que desenvolve suas ações diante de meus olhos.
Sou parte de ti. Mas destaco-me agora para me relacionar em diálogo. Assumo os riscos de uma compaixão nunca antes experimentada, para te resgatar dessas teias por onde teu corpo vem se perdendo. Não falemos de alma, por enquanto. Desprendamo-nos um pouco dessa realidade infinita para apenas focar nesse conjunto de células, que efetiva a existência nesta dimensão.
Ontem alguém lhe recomendou que você caminhe, percebendo seus pés no chão. Percebendo o mundo à sua volta. As borboletas azuis e os calangos muito verdes no parque. As epifanias diárias que rondam cada instante.
“A vida é uma alucinante aventura da qual jamais sairemos vivos”, dizia um tal Bob. “Nunca se leve tão a sério”, cantava um tal Lenine. E você concordava em silêncio, abraçando a íntima suspeita de jamais conseguir alcançar tamanha liberdade.
Eu me proponho a compartilhar contigo essas dores. A ajudar-te a descobrir onde teus laços com a existência se desfiguraram em amarras. A propôr as alquimias diárias que te ajudem a bordar novos laços. Reencontrar um eixo para teus pés. Onde eles sem medo e sem névoas caminhem. Soltos do ceu para desenhar infinitos.
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