terça-feira, 22 de abril de 2008

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Reflexões sobre o tempo 2 - o livro de cabeceira


Uma de minhas características sempre foi gostar de muitas coisas. Isso às vezes se constitui em um grande tormento, pois evidencia mais uma vez o paradoxo que é a escravidão da liberdade. Livres para escolher, por vezes acabamos paralisados, na letargia de não saber para onde apontar. O que abraçar. Sobre o que se debruçar.
Com a arte e a filosofia, onde sempre encontrei o prazer todas as vezes em que me dispunha a entregar o espírito, não poderia ser diferente. Mas o tempo, aos poucos, foi apontando certas predileções.
Sempre senti falta, por exemplo, do tal livro de cabeceira. Aquele que, quando perguntam, você responde prontamente: este, este é o meu favorito! Até que, depois de uma tentativa frustrada de leitura há 11 anos (em 1997, ainda época do segundo grau), já no terceiro ano da faculdade (2002) desengavetei “A insustentável leveza do ser”.
Desenrolando-se pelas vidas de quatro personagens – Thomas, Thereza, Sabrina e Franz – a trama de Milan Kundera caiu como uma luva naquela época, com seus questionamentos sobre o “eterno retorno” nietzscheano, o “amor como uma metáfora”, o acaso e o destino nos relacionamentos e na vida, de uma forma geral. O peso de nossas escolhas, mesmo tendo sido a leveza a motivação que a elas nos conduziu.
Ah, e claro que não deixei de citar o personagem Karenin simplesmente por ser um animal. Não o citei com os outros simplesmente porque Karenin merecia um parágrafo a parte neste escrito virtual, assim como também mereceu em minha vida, inspirando o nome de um cachorro que durante aproximadamente quatro anos habitou minha casa. Um dos trechos do livro mostra a grande condenação do homem, justamente a partir da perspectiva da cadela Karenin:
“Mas sobretudo: nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode, porque não foi banido do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução. Em torno de Tereza e Tomas, Karenin traça o círculo de sua vida, baseada na repetição, esperando deles a mesma coisa.
Se Karenin fosse um ser humano e não um animal, certamente já teria dito a Tereza, há muito tempo: “Escuta, não acho graça de todos os dias ter que levar um croissant na boca. Não poderia descobrir uma brincadeira diferente? Essa frase contém toda a condenação do homem. O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz, porque a felicidade é o desejo da repetição.”

O prazer de folhear “A insustentável leveza do ser” não me cansa, este que foi meu primeiro livro de cabeceira.O desejo de ser Sabrina, com sua apaixonante liberdade; a verdade de me ver nos medos de Tereza; a tentativa de negar o ter uma missão, como Tomas; o abismo dos ideais, em Franz.
E a eterna busca de um amor incondicional,
tão atingível quanto
o sorriso de Karenin.

Reflexões sobre o tempo 1


O tempo já há alguns anos tem se constituído em uma questão interessante para mim. Não digo desde sempre, porque acho que na fase da infância ele se mostra como uma vastidão impossível de se alcançar. Às vezes, lá pelos 13 anos, quando certas inquietudes principiavam a aflorar, me pegava pensando “quando eu tiver 20, 20 e poucos anos, farei tais e tais coisas”. Os trinta, quarenta, cinqüenta, nem sequer passavam pela minha cabeça. Eram como uma impossibilidade.
E hoje, cá estou, com meus 25 anos, quase 26. Quase uma balzaquiana (risos). Encarnando com perfeição as dúvidas em versos: “Twenty five years and my life is still tryring to get up that great big hill of hope, for a destination...”
But, “What's up”?!!!
Estranho ver como as dimensões do tempo se tornam cada vez mais estreitas, quando em tese ainda há tanto a viver. Ao mesmo tempo, a gente pensa em fatos passados como se tivessem ocorrido ontem, e ao fazer as contas lá se vão quatro, cinco, dez anos. Uau!
Fruto do tempo, a liberdade. A liberdade, esse privilégio do qual ainda não nos convencemos a ser donos. Vivemos hoje o paradoxo de sermos escravos da própria liberdade que construímos. Ou de nós mesmos, que não sabemos usá-la? O que deu errado para nós, agora loucos desvairados que não sabem para onde apontar seus próprios desejos?
Mais fácil buscar a felicidade provisória na equação trabalhar+consumir do que em algo muito mais complexo, que se traduz em: desnudar-se, diante da vida. De afirmar para si mesmo, diante do espelho: nada é meu, nada é estável, nada me pertence. Mas eu estou disposto a correr todos os riscos, a lutar pelo que acredito, a ouvir o canto dos pássaros, a desafiar as vozes que não me dão outra alternativa senão seguir regras. Como se viver se limitasse a uma receita de bolo.
Correr o risco de se entregar em oferta, diante do milagre da vida. Em uma felicidade sofrida, difícil, por vezes triste, mas ainda assim felicidade. Perene. Repleta de sentido. Regozijando em seus sentidos. Vigorosa em sua fúria criativa.
Capaz de olhar para dentro. E ver no dentro, o outro em espelho.

Quando não se adormece uma liberdade


Cercada entre as paredes do quarto. Mas alargados os limites do corpo. No vão do pensamento, as liberdades se desenham. Assumem o colorido de uma natureza redescoberta, de uma paisagem desvendada, de um som repetidas vezes sentido. Adormecem os medos. Surgem teus olhos. E de novo eu renasço.
A que(m) oferecer o ser livre?
Onde habitaria a resposta, se não nos labirintos de meu mundo?
Olhar para dentro
Ouvir o dentro
Ecoar
em versos de mim

sábado, 8 de março de 2008

Delírios noturnos


Como eu queria tanto às vezes o afago de uma resposta. Como eu queria poder enxergar uma felicidade calma e plácida como as manhãs de sol, leve como uma brisa a me tocar à beira do mar. Respostas que me resgatassem dessa escuridão profunda, dessa solidão de que nem uma voz amiga consegue libertar. Como eu queria alcançar um ponto de apoio, uma satisfação sem limite, uma zona de conforto onde as tormentas jamais me alcançassem. Que eu tivesse um sentimento constante onde nunca houvesse espaço para dúvidas, sem nunca pôr em xeque a verdade. Como eu queria não desejar um sono eterno e profundo, não desejar os olhos, não abri-los. Não desejar uma realidade simplesmente porque me é nova e desconhecida. Não rejeitar uma realidade simplesmente porque me é nova e desconhecida. Desejar o desejo. Desejar o não-desejo. A esquizofrenia e a lucidez. O desespero da resignação. O desespero do desconforto. Como tocar as cordas de um violão desafinado.