Vitrais do Tempo
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Ocupa Câmara
Ontem, durante o horário de almoço, parei um pouco em frente à Câmara dos Vereadores, na Cinelândia. Fiquei alguns minutos conversando com um dos manifestantes. Um rapaz de 29 anos, que disse não ser ligado a nenhum movimento social. Participou da grande manifestação do dia 20 de junho, e a partir daí começou a se informar, se engajar, e lá está agora, na ocupação. Se trabalha? Disse estar aguardando ser chamado no concurso da Caixa Econômica. Enquanto a Caixa não o encaixota entre as quatro paredes de um escritório, segue ele canalizando o seu ócio para estar lá, junto aos demais, fazendo pressão para que quem atua lá, dentro da Grande Arena-Caixa Pública, faça ao menos o mínimo do que deveria fazer: desencaixotar o que há de tão sórdido que não possa ser mostrado com a transparência necessária, no sistema de transporte público da NOSSA cidade.
À noite, mais pessoas se juntaram em frente à Câmara, onde acontecia um sarau promovido pela Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFUNK). O engravatado se despiu do terno em reverência ao espaço e lembrou o canto de Ney: “Quem tem consciência pra se ter coragem/Quem tem a força de saber que existe/E no centro da própria engrenagem/
Inventa contra a mola que resiste”. A professora da Zona Oeste atravessou a cidade para recitar a poesia do amigo. O rapaz envolto na bandeira resgatou a Adriele do Complexo do Lins, mais uma das tantas vidas que se tornaram apenas mais um número nas estatísticas de violência. O morador da Babilônia lembrou a violência policial impregnada no dia-a-dia da periferia, enquanto o Amarildo já impregnado está no imaginário coletivo: por onde anda? Por onde andam Amarildas e Amarildos? Por onde vagueiam? Quando uma luz se apaga, o que fica? Qual a cor do vazio? O cheiro? O rosto? “Vocês, fardados, também são pais de família”, ecoou o grito em meio à Cinelândia.
E o funk para além do que a mídia mostra, como disse o funkeiro, se fez presente: “É NÓS, por NÓS.”
Demorô! Tamo junto!
#ocupacamara
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Mais uma canção (incompleta)
Viva o tanto que te aprecio
nas batidas do meu coração
Apague as velas
enquanto silencio
Me deixe morrer em vão
Viva o tanto que te aprecio
nas batidas do meu coração
Esqueça as trevas
Enquanto silencio
Que eu sou de morrer em vão
Que eu sou de morrer em vão
nas batidas do meu coração
Apague as velas
enquanto silencio
Me deixe morrer em vão
Viva o tanto que te aprecio
nas batidas do meu coração
Esqueça as trevas
Enquanto silencio
Que eu sou de morrer em vão
Que eu sou de morrer em vão
domingo, 4 de dezembro de 2011
Pedestre em Brasília*

Abre a porta do seu carro e vem
Larga a mochila, o I-phone também
Espera me diz onde cê vai me levar
No facebook vou compartilhar
Deleta a notícia da cabeça e veja
o céu a te abraçar onde quer que esteja
Veja os ipês em seus múltiplos tons
E os tons dos passarinhos
Desenhando canções
O horizonte a alargar a vista
Um botão que cerrado se anuncia
Vamos correr e alugar um balão
Pra ver a cidade sem os pés no chão
Seis horas, se liga, bate o ponto e vem
Esquece os ofícios, memorandos também
Estou atrasada para ir pra casa
Não dou conta do rush nessa Esplanada
Larga o carro e vem a pé comigo
Venha que o céu vai te dar abrigo
Adentra as cores do sol a se pôr
As nuvens em volta de uma nave em flor
Tira o sapato sem qualquer frescura
O vermelho da terra completa a pintura
Vamos correr e alugar um balão
Pilotar a cidade sem os pés no chão
*Uma música pra dizer que é possível ser pedestre em Brasília, com um pouco de poesia
Resposta a um Fraseado Musical*
A pele dos meus sonhos
habita uma canção que vai e vem
Ao me sussurrar desperta
Envolve-me no tempo e vai além
Onde vejo o céu cheio de estrelas
um banco, um carinho, um violão
Esse lento dedilhar
que nos fazia azuis
azuis da cor do mar
azuis da cor do mar
azuis do nosso olhar
*Rascunho para o Projeto Passos, inspiração in Um Fraseado Musical para o MinC
habita uma canção que vai e vem
Ao me sussurrar desperta
Envolve-me no tempo e vai além
Onde vejo o céu cheio de estrelas
um banco, um carinho, um violão
Esse lento dedilhar
que nos fazia azuis
azuis da cor do mar
azuis da cor do mar
azuis do nosso olhar
*Rascunho para o Projeto Passos, inspiração in Um Fraseado Musical para o MinC
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Rascunhos
"Podemos criar laços sem amarras?"
A voz ecoava no interior de Catarina, enquanto seus olhos deitavam lembranças sobre a rua deserta. Do outro lado do prédio onde morava, vidas se moviam na mudez de suas solidões. O catador colhia pedaços de nada no contêiner, acompanhado de um cavalo cansado. O vazio se desenhava na quietude de todas as coisas, assumindo a forma dos últimos rastros de sol.
Os pensamentos sobrevoavam a sua percepção de realidade. Desviou o olhar do céu quase noite e voltou-o para o sofá. Tocou suas dobras, sentiu o desejo quase inelutável de abraçar o passado latente. "Sim, podemos criar laços sem amarras." A resposta veio na forma de um leve conduzir, abrir as portas, adentrar os labirintos das sensações. Desvendar a eternidade guardada em cada pulsação.
Era um hábito conversarem sobre o universo depois de fazerem amor. Catarina perguntava sobre as energias, os espíritos, Deus, a criação. Ele falava sobre as vidas contidas em tudo o que ele era. Quando a exatidão de seus verbos se esvanecia em confusão, era sinal de seu espírito já envolto em sono. Ela pressentia o adormecer e lhe acariciava o rosto. Quais direções tomaria aquela liberdade?
Muito atormentada por seus problemas, um dia ela disse a um colega:
- Se isso acontecer, a questão é que minha vida ficaria parada, estagnada.
E ele lhe respondeu:
- Mas me diga, pra onde ela anda? Pra onde ela se move?
A voz ecoava no interior de Catarina, enquanto seus olhos deitavam lembranças sobre a rua deserta. Do outro lado do prédio onde morava, vidas se moviam na mudez de suas solidões. O catador colhia pedaços de nada no contêiner, acompanhado de um cavalo cansado. O vazio se desenhava na quietude de todas as coisas, assumindo a forma dos últimos rastros de sol.
Os pensamentos sobrevoavam a sua percepção de realidade. Desviou o olhar do céu quase noite e voltou-o para o sofá. Tocou suas dobras, sentiu o desejo quase inelutável de abraçar o passado latente. "Sim, podemos criar laços sem amarras." A resposta veio na forma de um leve conduzir, abrir as portas, adentrar os labirintos das sensações. Desvendar a eternidade guardada em cada pulsação.
Era um hábito conversarem sobre o universo depois de fazerem amor. Catarina perguntava sobre as energias, os espíritos, Deus, a criação. Ele falava sobre as vidas contidas em tudo o que ele era. Quando a exatidão de seus verbos se esvanecia em confusão, era sinal de seu espírito já envolto em sono. Ela pressentia o adormecer e lhe acariciava o rosto. Quais direções tomaria aquela liberdade?
Muito atormentada por seus problemas, um dia ela disse a um colega:
- Se isso acontecer, a questão é que minha vida ficaria parada, estagnada.
E ele lhe respondeu:
- Mas me diga, pra onde ela anda? Pra onde ela se move?
O Menino na Laje*

Olha o menino na laje, à toa
Meus quereres distrai
Seu olhar me enfeitiça e voa
onde o tempo não vai
Doura a pele no sol que invade
o caos dos seus temporais
Guarda um quê de saudade e arde
o beijo que o tempo não traz
o beijo que o tempo não traz
Olha o menino na laje, à toa
meus quereres atrai
Seu olhar me cruzou pelas ruas
me guardou onde vai
Segue ao encontro da lua, acende
a luz nos meus temporais
Sem dizer algo mais me rende
no beijo que o tempo me traz
no beijo que o tempo me traz
no beijo que o tempo nos traz
no beijo que o tempo nos traz
*Inspirada em alguém que, por acaso ou destino, cruzou o meu caminho pelas ruas de Santa Tereza, e me inspira a parar de buscar, e apenas ser.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Um Poema de Borges
Escrituras de luz investem na sombra, mais prodigiosas
que meteoros.
A alta cidade incognoscível avança sobre o campo.
Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambiciosos
e tento entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, prestes a atacar.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes
de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos
e uma velha espada,
a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua
exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.
Meu nome é alguém e qualquer um.
Passo devagar, como quem vem de tão longe que não
espera chegar.
Jorge Luis Borges
que meteoros.
A alta cidade incognoscível avança sobre o campo.
Certo de minha vida e de minha morte, fito os ambiciosos
e tento entendê-los.
Seu dia é ávido como o laço no ar.
Sua noite é trégua da ira no ferro, prestes a atacar.
Falam de humanidade.
Minha humanidade está em sentir que somos vozes
de uma mesma penúria.
Falam de pátria.
Minha pátria é um lamento de guitarra, alguns retratos
e uma velha espada,
a desvelada prece dos salgueiros nos fins de tarde.
O tempo está vivendo-me.
Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua
exaltada cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores da manhã.
Meu nome é alguém e qualquer um.
Passo devagar, como quem vem de tão longe que não
espera chegar.
Jorge Luis Borges
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