"Podemos criar laços sem amarras?"
A voz ecoava no interior de Catarina, enquanto seus olhos deitavam lembranças sobre a rua deserta. Do outro lado do prédio onde morava, vidas se moviam na mudez de suas solidões. O catador colhia pedaços de nada no contêiner, acompanhado de um cavalo cansado. O vazio se desenhava na quietude de todas as coisas, assumindo a forma dos últimos rastros de sol.
Os pensamentos sobrevoavam a sua percepção de realidade. Desviou o olhar do céu quase noite e voltou-o para o sofá. Tocou suas dobras, sentiu o desejo quase inelutável de abraçar o passado latente. "Sim, podemos criar laços sem amarras." A resposta veio na forma de um leve conduzir, abrir as portas, adentrar os labirintos das sensações. Desvendar a eternidade guardada em cada pulsação.
Era um hábito conversarem sobre o universo depois de fazerem amor. Catarina perguntava sobre as energias, os espíritos, Deus, a criação. Ele falava sobre as vidas contidas em tudo o que ele era. Quando a exatidão de seus verbos se esvanecia em confusão, era sinal de seu espírito já envolto em sono. Ela pressentia o adormecer e lhe acariciava o rosto. Quais direções tomaria aquela liberdade?
Muito atormentada por seus problemas, um dia ela disse a um colega:
- Se isso acontecer, a questão é que minha vida ficaria parada, estagnada.
E ele lhe respondeu:
- Mas me diga, pra onde ela anda? Pra onde ela se move?
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