
Abraçou com força os joelhos, tentando impedir o corpo de transbordar. Juntava fragmentos do que não podia compreender. Vinte e poucos anos, e as coisas continuavam morrendo dentro de Agnes. Escurecendo com o céu daquele fim de tarde. Ainda assim, uma faísca de ternura permanecia em seus olhos.
Abriu o armário e retirou do fundo de uma gaveta o pagãozinho comprado um dia antes. Deslizou o tecido pelo rosto. Comprimiu os seios inchados, imaginando a vida que poderia surgir daí a alguns meses. Tocar-se era desvendar uma beleza jamais experimentada. Sentir-se deusa.
Mas o corpo anunciava que já era tarde. Tentou alguma distração, buscando a si mesma nos detalhes do quarto, ainda que nada suportasse mais tomar parte na fuga. Seu interior fazia-se tempestuoso. Lembrava-lhe o verão de Vivaldi.
Reparou na aranha sobre a teia em um dos cantos da parede. Sempre teve asco dessa espécie de monstro em miniatura, mas mesmo assim aproximou-se. Observar aquela estranha anatomia era quase um resgate. O lento deslizar das patas sobre fios esculpidos no ar, como se ao nojo fosse dado o direito de existir.
O quarto se fez mais frio quando sentiu algo correr pelas pernas. Um líquido, igual ao da aranha, que no entanto não se transformaria em seda no contato com o mundo. Deixaria um rastro rubro pela pele, solidificando-se nos pêlos. Agnes cerrou as pálpebras e tocou com horror o sexo. Apertou os seios já murchos, tentando salvar-se do que havia descoberto.
Enquanto a jovem se fechava em concha, a aranha a desnudava. Rainha, expunha os ovos trazidos dentro de si. A soberania pela maternidade, encarava a inveja da mulher a corroer-lhe as entranhas cheias de vida.
Agnes pegou o pagãozinho e com ele atacou a presa. Ao abrir o tecido, viu com satisfação os pedaços colados nas dobras, e deslizou os dedos pelos restos da aranha. Tocá-la era preferível a experimentar a si mesma. Agachou-se de encontro à parede sem teias e ficou ali, a esvair-se.
Sobre as pálpebras uma dor a lhe pesar o desejo de um sono sem fim, até perceber algo a lhe resgatar junto aos primeiros vestígios do novo dia. Levantou-se, escondeu as lágrimas.
Abriu a porta.
O corredor lhe pareceu mais vazio do que em outras manhãs. Tateava os ecos na escuridão, na tentativa de alcançar a voz dele. Os olhos permaneceriam cerrados, se não a tivesse ouvido. Mais uma vez lembrou-se de si, percorrendo os labirintos da vizinhança até a casa do rapaz. Daquele encontro, restariam apenas um corpo marcado, uma escolha a assombrá-la nas madrugadas, e aquela voz sem alma, a salvar-lhe a cada manhã. Foi até o banheiro. Nas mãos, ainda os vestígios do crime. Lavou-as, limpou o rosto marcado de olheiras, vestiu-se. Pegou suas coisas e partiu.
* conto escrito há aproximadamente dois anos, como exercício para uma oficina de contos no Rio de Janeiro, com o professor Leonardo Vieira