segunda-feira, 24 de setembro de 2007

:: Vitral ::




Estava eu outro dia a pesquisar no "Deus Google", e qual não foi minha surpresa, ao digitar a palavra "Vitral", quando encontrei um singelo texto do escritor Rubem Alves. Eis um trecho:

"E é assim que eu imagino Deus: como um fino fio de nylon, invisível, que procura minhas contas de vidro no fundo do rio e as devolve a mim, como um colar. Não por ele mesmo (sobre quem nada sei), mas por aquilo que ele faz com minhas contas....

Quero Deus como um artista que cata os cacos do meu vitral, partido por pedradas ao acaso, e os coloca de novo na janela da catedral, para que os raios de sol de novo por eles passem.

O que eu quero é um Deus que jogue o jogo das contas de vidro, sendo eu uma das contas coloridas do seu jogo..."


Pra quem quiser mais...

:: Vitral ::

domingo, 23 de setembro de 2007

Saudade



Brasília, 23 de setembro de 2007.

Poxa, fiquei um bom tempo sem postar nada... mas me policiarei pra alimentar este espaço com mais freqüência, pois é uma forma de exercitar o espírito, através das palavras. Não tive como não transbordar agora o tanto de saudade que me invadiu nesses últimos dias. Aí vai:


Saudade

Quando as ruas não lembram amores
Quando não há um mar que arrefeça o calor
Quando a distância do mar não tem as cores de um subúrbio
Quando as canções fazem o corpo desejar lugares
Quando as teclas do piano evocam o tom
da poesia que nasceu na boemia dos bares
e cantou o dourado da moça
a desfilar nas areias
Quando não há dois morros onde se aninhe o sol
a ceder lugar à noite
Quando não há uma baía onde a lua
se dissolva em rastros de prata
entre barcos
E não há o bonde, e não há os arcos
a cinelândia e o municipal
quinquilharias no saara, barracos
e o relógio da Central
Quando o caminho do trabalho
não tem a paisagem dos contrastes
E nas entrelinhas de cada alegria
lateja sempre uma ausência
e o coração a buscar
uma cidade

sábado, 1 de setembro de 2007

Nova Criação: Centelha


Brasília, 2 de setembro de 2007.

Ufaaa... demorou, mas depois de mais de um ano de preguiça criativa, finalmente pus letra em uma música do meu amigo David Paiva, músico carioca talentosíssimo, que conheci no sobrado onde o também músico Fagundes, mais conhecido como Maestro das Ruas, escreve partituras para registro de canções.
Eis abaixo, a mais nova criação, pena que não tem o áudio:


Centelha

Celebrar as luzes com um canto a mais
A tecer as cores de um poema em jazz
Transbordar a tela a evocar marés
Alcançar o céu morada dos teus pés

Tocar a tez que me enredou
em mil doces teias e levou

presa em teus olhos
centelha
Amor

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Pontos finais X Reticências



Brasília, 28 de agosto de 2007.


Desaprendemos a arte da despedida. Perdemos a coragem de, em face da pessoa com quem se compartilhou uma história, relatar a seus olhos os motivos de se retirar de sua vida. Se a proximidade facilita o encontro, mais fácil esquivar-se, procurar saída nas brechas do cotidiano. Se a distância é aliada, basta reagir com indiferença às interrogações perdidas na caixa de e-mail, enxergar como um nada as mensagens mandadas pelo celular, ouvir o toque do aparelho como quem aprecia um espetáculo onde não há aplausos.
Para quem chama, insiste, questiona, resta a resignação da espera. E a difícil descoberta de que o mundo também exige uma resposta, cuja gênese estará no sufocamento da dor. Já não há o tempo de chorar com perdas, com a beleza perdida nos momentos vividos. Há que se anestesiar a urgência do espírito e descartar as vivências, antes que elas sobrevivam a nós.
As não-respostas se configuram em reticências, que oferecem o mundo das possibilidades, das indagações. Mas quase sempre melhor o rasgo completo de um ponto final do que a dor permanente de uma dúvida

*Texto de autoria de Ju Santana, postado no outro blog, http://seretempo.blogspot.com, no dia 23 de junho de 2005

domingo, 26 de agosto de 2007

Uma homenagem



Brasília, 27 de agosto de 2007 (00h03)


Hoje eu não estou perto para te dar um beijo. Para te abraçar e dividir contigo longas horas de assuntos infindáveis. Você sabe bem como eu sou: teimosa em me revelar, muitas vezes preferi a solidão do quarto vazio. Mas quantas vezes soubeste usar de tua paciência e me fazer encontrar as verdades ocultas até para mim.
Quantas vezes também nossas diferenças estremeceram os laços até transbordar pelos espaços da casa. Não neguemos os sonhos perdidos, os desejos contidos, as folhas caídas, em decorrência de nossos caminhos cruzados. De teres feito da minha, uma nova gênese de ti.
Mas aqui estou, e se tenho em mãos versos, claves e fortalezas para erguer futuros, tu que me deste. Um sorriso ou uma palavra, e resgatada estava a capacidade de acreditar em mim mesma. Quisera eu te fazer acreditar em triplo nas realizações que podes ainda alcançar com a força em ti concebida.
Hoje um coração rico em ternura celebra suas primeiras batidas. E eu agradeço por ele existir e dar vida a um ser humano tão belo.

Feliz Aniversário, Mãe!

Carnaval Multicultural em Brasília











Brasília, 25 de agosto de 2007 (UM ANO DE BRASÍLIA!!!).


A festa fora de época transportou Recife para o gramado da Funarte. O frevo e o maracatu a reinar absolutos, alavancando os pés dos foliões em saltos improvisados atrás do trio. O sol se punha em tons de azul, vermelho, amarelo e verde, oculto pelas sombrinhas dos moços e moças.
“Tá caindo fulô! Tá caindo fulô”! Eram as vozes das meninas do Casa de Farinha, a se somar à beleza da noite! E enquanto a multidão inquieta ensaiava os passos sobre a grama, ainda carente de seu rei, eis que desponta Alceu, majestade dos mares de Olinda.
Ó sim, “tu vens, tu vens, e eu já escuto os teus sinais”.

sábado, 18 de agosto de 2007

Redenção




Abraçou com força os joelhos, tentando impedir o corpo de transbordar. Juntava fragmentos do que não podia compreender. Vinte e poucos anos, e as coisas continuavam morrendo dentro de Agnes. Escurecendo com o céu daquele fim de tarde. Ainda assim, uma faísca de ternura permanecia em seus olhos.
Abriu o armário e retirou do fundo de uma gaveta o pagãozinho comprado um dia antes. Deslizou o tecido pelo rosto. Comprimiu os seios inchados, imaginando a vida que poderia surgir daí a alguns meses. Tocar-se era desvendar uma beleza jamais experimentada. Sentir-se deusa.
Mas o corpo anunciava que já era tarde. Tentou alguma distração, buscando a si mesma nos detalhes do quarto, ainda que nada suportasse mais tomar parte na fuga. Seu interior fazia-se tempestuoso. Lembrava-lhe o verão de Vivaldi.
Reparou na aranha sobre a teia em um dos cantos da parede. Sempre teve asco dessa espécie de monstro em miniatura, mas mesmo assim aproximou-se. Observar aquela estranha anatomia era quase um resgate. O lento deslizar das patas sobre fios esculpidos no ar, como se ao nojo fosse dado o direito de existir.
O quarto se fez mais frio quando sentiu algo correr pelas pernas. Um líquido, igual ao da aranha, que no entanto não se transformaria em seda no contato com o mundo. Deixaria um rastro rubro pela pele, solidificando-se nos pêlos. Agnes cerrou as pálpebras e tocou com horror o sexo. Apertou os seios já murchos, tentando salvar-se do que havia descoberto.
Enquanto a jovem se fechava em concha, a aranha a desnudava. Rainha, expunha os ovos trazidos dentro de si. A soberania pela maternidade, encarava a inveja da mulher a corroer-lhe as entranhas cheias de vida.
Agnes pegou o pagãozinho e com ele atacou a presa. Ao abrir o tecido, viu com satisfação os pedaços colados nas dobras, e deslizou os dedos pelos restos da aranha. Tocá-la era preferível a experimentar a si mesma. Agachou-se de encontro à parede sem teias e ficou ali, a esvair-se.
Sobre as pálpebras uma dor a lhe pesar o desejo de um sono sem fim, até perceber algo a lhe resgatar junto aos primeiros vestígios do novo dia. Levantou-se, escondeu as lágrimas.
Abriu a porta.
O corredor lhe pareceu mais vazio do que em outras manhãs. Tateava os ecos na escuridão, na tentativa de alcançar a voz dele. Os olhos permaneceriam cerrados, se não a tivesse ouvido. Mais uma vez lembrou-se de si, percorrendo os labirintos da vizinhança até a casa do rapaz. Daquele encontro, restariam apenas um corpo marcado, uma escolha a assombrá-la nas madrugadas, e aquela voz sem alma, a salvar-lhe a cada manhã. Foi até o banheiro. Nas mãos, ainda os vestígios do crime. Lavou-as, limpou o rosto marcado de olheiras, vestiu-se. Pegou suas coisas e partiu.

* conto escrito há aproximadamente dois anos, como exercício para uma oficina de contos no Rio de Janeiro, com o professor Leonardo Vieira

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Pólis do Cerrado


Finalmente consegui montar meu blog, do jeitinho que queria. Há tempos vinha apanhando dos sites para criação de blog, nunca encontrava uma formatação que me agradasse. Mas agora que criei um com a minha cara, posso divulgar e também me apresentar.
Prazer, me chamo Juliana. Assinatura: Ju Santana. Sou mais uma carioca perdida em Brasília. O meu é o terceiro blog que conheço que nasceu como uma tentativa de ser um espaço de desabafo/relato sobre as vivências na capital, por um olhar “de fora”. O olhar de quem veio de longe, muitas vezes involuntariamente. No meu caso, a vinda não foi planejada, mas bem aceita. Como boa parte dos que aqui estão, o motivo: passei num concurso, e cá estou, já há quase um ano.
Costumo dizer que Brasília é uma cidade com um jeito diferente de ser cidade. Onde a ausência de multidões prepondera, exceto na rodoviária, considerada por muitos – e com razão, no meu ponto de vista – a visão do inferno. Se a pólis surgiu como um espaço para acolher os cidadãos, esta “pólis do cerrado”, pela própria forma como foi planejada, desfavorece a interação. Brasília, o lugar dos “não-lugares”.
Mas também onde o céu parece mais perto. Onde a diversidade provoca a vida a sempre teimar em transbordar, a cada não-esquina, a cada amplidão de espaços, a cada rachar de peles e lábios por conta da secura.
O primeiro texto postado, aliás, é fruto de uma dessas inspirações que emergem quando a gente permite ao coração abraçar o momento, onde quer que se esteja. Afinal, como bem me lembrou uma frase avistada num pedacinho de madeira perdido logo quando cheguei aqui, “you’re never lost when you don’t care where you are.”

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Leoa de Taguá


Brasília, 30 de julho de 2007.



A voz de ébano ocupava os espaços da esplanada. Deixando-se esvair pela multidão, fazia a ponte entre o céu e o vermelho da terra: o cerrado a celebrar a voz, entre os traços de Niemeyer. Enquanto das mãos de uma catedral a lua apontava o encerrar do dia, as gentes de todo o canto em uníssono, a cantar a tonalidade da noite. Evocando paisagens, origens, viveres. Desejos.
Leoa negra a ressoar pegadas de longe. A emergir, peixes, colares e sapatos de uma feira. Natural luz sobre a seca. E que deste centro transbordará seus mares contidos, por outras terras. Não pedirá licença a quem, sem aviso, a ela se permitir entregar. A estes caberá sentir, como se extensões daquele peito em erupção de liberdade.
À tona de seus abismos, a voz deixa em cada pele uma marca, um presságio, um carinho. Saúda um coro ainda quase virgem de seu nome, mas jamais de seus efeitos. É a noite que avança em busca de outras vozes, mas já batizada por Ellen Oléria.

*texto criado após um show da cantora Ellen Oléria, de Taguatinga, um dos talentos destas bandas

Me by Eternity