segunda-feira, 21 de abril de 2008

Reflexões sobre o tempo 2 - o livro de cabeceira


Uma de minhas características sempre foi gostar de muitas coisas. Isso às vezes se constitui em um grande tormento, pois evidencia mais uma vez o paradoxo que é a escravidão da liberdade. Livres para escolher, por vezes acabamos paralisados, na letargia de não saber para onde apontar. O que abraçar. Sobre o que se debruçar.
Com a arte e a filosofia, onde sempre encontrei o prazer todas as vezes em que me dispunha a entregar o espírito, não poderia ser diferente. Mas o tempo, aos poucos, foi apontando certas predileções.
Sempre senti falta, por exemplo, do tal livro de cabeceira. Aquele que, quando perguntam, você responde prontamente: este, este é o meu favorito! Até que, depois de uma tentativa frustrada de leitura há 11 anos (em 1997, ainda época do segundo grau), já no terceiro ano da faculdade (2002) desengavetei “A insustentável leveza do ser”.
Desenrolando-se pelas vidas de quatro personagens – Thomas, Thereza, Sabrina e Franz – a trama de Milan Kundera caiu como uma luva naquela época, com seus questionamentos sobre o “eterno retorno” nietzscheano, o “amor como uma metáfora”, o acaso e o destino nos relacionamentos e na vida, de uma forma geral. O peso de nossas escolhas, mesmo tendo sido a leveza a motivação que a elas nos conduziu.
Ah, e claro que não deixei de citar o personagem Karenin simplesmente por ser um animal. Não o citei com os outros simplesmente porque Karenin merecia um parágrafo a parte neste escrito virtual, assim como também mereceu em minha vida, inspirando o nome de um cachorro que durante aproximadamente quatro anos habitou minha casa. Um dos trechos do livro mostra a grande condenação do homem, justamente a partir da perspectiva da cadela Karenin:
“Mas sobretudo: nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode, porque não foi banido do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução. Em torno de Tereza e Tomas, Karenin traça o círculo de sua vida, baseada na repetição, esperando deles a mesma coisa.
Se Karenin fosse um ser humano e não um animal, certamente já teria dito a Tereza, há muito tempo: “Escuta, não acho graça de todos os dias ter que levar um croissant na boca. Não poderia descobrir uma brincadeira diferente? Essa frase contém toda a condenação do homem. O tempo humano não gira em círculos, mas avança em linha reta. Por isso o homem não pode ser feliz, porque a felicidade é o desejo da repetição.”

O prazer de folhear “A insustentável leveza do ser” não me cansa, este que foi meu primeiro livro de cabeceira.O desejo de ser Sabrina, com sua apaixonante liberdade; a verdade de me ver nos medos de Tereza; a tentativa de negar o ter uma missão, como Tomas; o abismo dos ideais, em Franz.
E a eterna busca de um amor incondicional,
tão atingível quanto
o sorriso de Karenin.

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